Crónicas da associação

As multidões da floresta

Fevereiro de 2019. Um ciclo expositivo dedicado ao pensamento Ameríndio habita o Centro Internacional das Artes José de Guimarães, nome de um dos principais artistas plásticos portugueses contemporâneos, autor de uma vasta obra na pintura e escultura, como a badalada “Bicha Serpe”, representação da icónica figura secular com origem na procissão do Corpo de Deus da cidade de Penafiel.

Em exposição, uma mostra de Manuel Rosa realizada em diálogo com uma colecção de cerâmica Pré-Colombiana e um projecto de João Salaviza e Renée Nader Messora em torno dos Índios Krahô, realizado em parceria com DocLisboa, o mais importante festival de cinema documental do país.

No último piso abaixo do zero, um conjunto de fotografias de Eduardo Viveiros de Castro celebram “Variações do Corpo Selvagem”. Em entrevista, diz o antropólogo brasileiro que "eles [os índios] podem nos ensinar a viver num mundo que foi invadido, saqueado, devastado pelos homens. Isto é, ironicamente, num mundo destruído por nós mesmos, cidadãos do mundo globalizado, padronizado, saturado de objetos inúteis, alimentado à custa de pesticidas e agrotóxicos e da miséria alheia. [...] Eles podem nos ensinar a voltar à Terra como lugar do qual depende toda a autonomia política, econômica e existencial. Em outras palavras: os índios podem nos ensinar a viver melhor em um mundo pior."

Setembro de 2015. Em Nabusimake, norte da Colômbia, cerca de 500 indígenas vêem cinema pela primeira vez. A aldeia é povoada pela comunidade Arawak e suas casas de barro com bases de pedra. Embora nunca tivessem estado perante imagens em movimento reflectidas numa tela, a comunidade parece compreender o que está a ver. O ecrã veio agitar o quotidiano e a tranquilidade dos dias. Um dos líderes da comunidade mostra-se interessado na nova experiência que lhes permite perceber “como é que outros vivem”. Os Arawak, sentados sobre pedras, riem serenos. Depois, batem palmas.

Junho de 2019. O novo clube exibe "Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos", de João Salaviza e Renée Nader Messora, premiados em vários festivais. A segunda longa-metragem do realizador português e a primeira da cineasta brasileira, “não é um filme sobre os índios krahô, é um filme com os índios krahô”, como escreveu Luís Miguel Oliveira. O estilo de vida desta comunidade e o pensamento sobre as formas de resistência indígena são o mote para uma obra que promove um debate extraordinariamente rico sobre a sobrevivência das culturas indígenas e o abismo entre mundos. Na próxima terça-feira dia 25 às 19h30 numa sala Cinemax Penafiel.