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Na sessão nona do novo clube de cinema, um filme de 2018 com origem em Portugal e Brasil, duração de 114 minutos. Distribuído pelo DocLisboa, o mais importante festival de cinema documental do país, classificado para maiores de 12 anos.

Filmado durante nove meses numa aldeia brasileira do estado de Tocatins, foi produzido por Ricardo Alves Jr. e Thiago Macêdo Correia, da produtora Entre Filmes, sediada em Minas Gerais, em coprodução com a portuguesa Karõ Filmes e com a Material Bruto, de São Paulo. Guião de João Salaviza e Renée Nader Messora que também assina a fotografia. Henrique Ihjãc Krahô, Raene Kôtô Krahô e os habitantes da aldeia Pedra Branca, Terra Indígena Krahô, nos principais papéis.

“Chuva existe sempre em tensão. Uma que tem que ver, paradoxalmente, com a sua extrema proximidade à comunidade e com a vontade de fazer um objecto cinematográfico que represente bem os Krahô e, ao mesmo tempo, represente bem o cinema.“ Ricardo Vieira Lisboa

Noite. Os espíritos e as cobras ainda não apareceram. A floresta ao redor da aldeia está calma, IIhjãc tem pesadelos desde que perdeu o pai. Com 15 anos, é um dos indígenas krahô do norte do Brasil. Avança na escuridão com o corpo suado, uma voz distante ecoa por entre as palmeiras. A voz do pai chama-o, junto à cascata: chegou o momento de preparar a sua festa de fim de luto para que o espírito possa partir para a aldeia dos mortos. “Na primeira viagem conhecemos um rapaz que ainda mora da aldeia que passou por um processo muito semelhante aquele em que o Ihjãc passa no filme. Era um miúdo adolescente, também com um filho bebé, e que de alguma forma estava a sentir-se profundamente doente. Essa doença era o resultado de um feitiço que lhe foi provocado por um outro pajé da aldeia.” Renée Nader Messora

“Chuva é Cantoria na Aldeia dos Mortos” surge após “Montanha” (2015), “Altas Cidades de Ossadas” (2017) e “Russa” (2018), realizado com Ricardo Alves Júnior. Depois da rodagem de “Montanha”, Salaviza afirmou que sentiu vontade de sair de um determinado sistema de produção, por isso deixou a zona de conforto, Lisboa, onde já tinha explorado narrativas sobre a adolescência e o corpo.

"Ninguém é capaz de garantir a essa geração que vai tudo correr bem e que vão alcançar os seus objetivos. Ao mesmo tempo há uma coisa que acho fascinante nessa geração, que é um desejo de viver a vida com uma intensidade indiferente às expectativas de um futuro organizado e próspero", disse João Salaviza a propósito da estreia da sua primeira longa-metragem.

O fecho de uma etapa, "esse desejo de cruzar adolescência e Lisboa", iniciada em curtas vencedoras de prémios como "Arena" (2009, Palma de Ouro de Cannes) e "Rafa" (2012, Urso de Ouro em Berlim), filmes em que "rapazes partem dos quartos para conquistar a cidade, para tomar o que acham que lhes pertence", como escreveu Vasco Câmara.

Rejeitando o seu dever e para escapar do processo de se transformar em xamã, Ihjãc foge para a cidade de Itacajá. Longe do seu povo e da sua cultura, vai enfrentar a realidade de ser um indígena no Brasil contemporâneo.

"...acabo por ir pela primeira vez à aldeia Pedra Branca, com a Renée, que me rapta depois da rodagem de Montanha [...] não posso dizer que tenha existido aqui um desejo programático de mudar de direcção. Não é um desejo artístico, um desejo de carreira de realizador. É justamente o contrário. É um encontro com a Renée, em primeiro lugar, e logo a seguir com os Krahô." João Salaviza

Entre o documentário e a ficção, um filme que resulta do convívio de anos que os realizadores tiveram com este povo. Quando venceram o prémio em Cannes, afirmaram que a distinção foi também para "o Brasil indígena, historicamente negado, silenciado, assassinado".

“...todos os projetos que eu desenvolvia na aldeia não tinham a ver com cinema. Eram mais voltados para a auto determinação da aldeia. Era um projeto mais político do que artístico, se é que dá para separar as duas coisas.” Renée Nader Messora

A segunda longa-metragem do realizador português e a primeira da cineasta brasileira, “não é um filme sobre os índios krahô, é um filme com os índios krahô”, como escreveu Luís Miguel Oliveira. O estilo de vida desta comunidade e o pensamento sobre as formas de resistência são o mote para uma obra que promove um debate extraordinariamente rico sobre a sobrevivência das culturas indígenas e o abismo entre mundos.