Crónicas da associação

Luzes da cidade maravilhosa

No primeiro dos anos vinte do século passado, Charlie Chaplin experimenta a longa-metragem como formato para narrar as peripécias do mais famoso personagem da história do cinema e da cultura popular.

No filme "O Garoto de Charlot", um vagabundo patético e mal vestido, de chapéu de coco amolgado, calças largas, sapatos enormes e uma bengala pretensiosa, vira pai de uma criança abandonada. A combinação excepcional de emoções leva-nos, espectadores, do riso ao choro sem sabermos como. Como escreveu Luís Miguel Oliveira no Público, “um olhar sobre a humanidade, concentrada na figura de Charlot, dada em todas as suas contradições, sentimental e maldosa, cruel e altruísta, violenta e pacífica, temente e revoltada”.

Depois de concluir a música para a peça de teatro “Orfeu da Conceição” de Vinicius de Moraes - que daria origem ao célebre filme de Marcel Camus, "Orfeu Negro" - Tom Jobim resolveu ir descansar em Poço Fundo, lá para os lados de Itaipava. Conta Vinicius que um dia, de volta da montanha, Tom sentou-se a seu lado, depois de "um papo manso", pegou no violão e tocou um sambinha. "Você gosta?” perguntou-me ele ao terminar, “Faz de novo." Tom repetiu-a várias vezes. "Era um samba todo em voltas, onde cada compasso era uma nota de amor, cada nota uma saudade de alguém longe." Depois, é a história que todo o mundo sabe. A bossa nova nascia na harmonia de “Chega de Saudade”, e a nova batida de violão na interpretação que João Gilberto descobriria logo depois. A música nunca mais seria a mesma, e o Brasil também não: "melhor do que o silêncio, só João".

Luzes da Cidade” é um filme mudo de 1931 rodado em contra-mão, quando o sonoro tinha já sido adoptado como padrão. Escapando à euforia do som, contra todas as expectativas, uma obra-prima de sucesso que acaba com uma das imagens mais famosas da história do cinema. Numa carta do mesmo ano, Chaplin descrevia o seu Charlot: “Este pobre ser, receoso, franzino e mal alimentado que represento no ecrã nunca é, de facto, vítima daqueles que o atormentam. Eleva-se acima dos seus sofrimentos; vítima de circunstâncias infelizes, recusa-se a aceitar a derrota. Quando as suas esperanças, os seus sonhos e as suas aspirações se desvanecem na futilidade e no nada, ele simplesmente encolhe os ombros e vira costas.”

Na sessão de Julho de 2019, o novo clube exibe "Shoplifters - Uma Família de Pequenos Ladrões", premiado em Cannes com a Palma de Ouro para melhor filme. Do realizador japonês Koreeda Hirokazu, um olhar humanista sobre o espaço familiar, histórias particulares com apelo universal. Terça-feira dia 30 às 19h30 numa sala Cinemax Penafiel.

Texto publicado na edição de 18/07/2019 do Jornal O Penafidelense