folha de sala

Primeira sessão do ano novo

Um filme com origem no Brasil e duração de 77 minutos. Distribuído em Portugal pela Nitrato, classificado para maiores de 16 anos.

Filmado em Porto de Pedras, Alagoas, estreado em 2014, uma produção de Rachel Ellis que assina o argumento com o realizador Gabriel Mascaro, também responsável pela fotografia. Nos principais papéis, Dandara de Morais, Geová Manoel dos Santos e Gabriel Mascaro.

Artista visual e cineasta, os seus trabalhos foram exibidos em vários festivais e exposições, do MoMA em Nova Iorque, à Bienal de São Paulo ou na de Veneza, em Oberhausen e Locarno - de onde levou Menção Especial numa competição com grandes nomes como Pedro Costa e o seu “Cavalo Dinheiro”, a história de um homem às voltas com os símbolos e os fantasmas da sua vila destruída pela revolução.

Mascaro começou pelo documentário, em foco o abismo existente entre classes no Brasil. Da filmografia do realizador pernambucano - o Observatório de Cinema de Famalicão dedicou-lhe uma retrospectiva na segunda edição do Close-Up, destacamos “Avenida Brasília Formosa” (2010), "Doméstica" (2012) e "Um Lugar ao Sol" (2015). Antes do multi-premiado "Boi Neon" (2015), estreia-se na ficção com "Ventos de Agosto".

Shirley abandonou uma grande cidade para viver numa pequena e pacata vila do litoral e cuidar da sua avó. Trabalha numa plantação de coco conduzindo um tractor, cultiva o gosto pelo punk rock e o sonho de ser tatuadora. Tem uma relação com Jeison, rapaz que também trabalha na fazenda de cocos e nas horas vagas faz pesca subaquática de lagosta e polvo.

Durante o mês de Agosto, com a chegada das tempestades e da maré alta, um estranho pesquisador chega à vila para registar o som dos ventos alísios que emanam da Zona de Convergência Intertropical. Os ventos crescentes marcarão os próximos dias, colocando Shirley e Jeison numa jornada sobre perda e memória, o vento e o mar.

“Nossa premissa era abordar de alguma forma aquele cemitério que estava sendo engolido pelo mar, que realmente existe.” Gabriel Mascaro

Numa comunidade pesqueira do nordeste brasileiro, um filme de referências e símbolos que, processados de novo, são tecidos numa delicada rede através da ficção e dos seus personagens que não protestam da vida e da sua condição. A dureza do trabalho, as relações familiares e o isolamento, são por vezes apresentados com o humor das situações absurdas.

"Aqui quem morre vai nem para o céu nem para o inferno, vai para o mar."

Corpos e sexo, vento e esperança, etnografia e ficção. Belas imagens e poéticas constróem pequenos fragmentos que parecem estar à disposição dum quadro maior, uma meditação sobre a morte e a vida num oásis de serenidade, como num filme de Apichatpong.

"Uma história inteiramente ficcional, levantando questões de progresso e comunidade de um modo que remete ao mesmo tempo para Apichatpong Weerasethakul e Glauber Rocha." Jorge Mourinha (Público)

“O Som ao Redor”, de Kleber Mendonça Filho, outro brasileiro da nova geração, é igualmente referido como objeto próximo, pois tal como Ventos de Agosto, “é a história de um mundo indeciso entre fechar-se sobre si mesmo e abrir-se ao outro.”

Mascaro apresenta o seu trabalho como uma leitura crítica do mundo de hoje a partir da observação ou invenção do quotidiano e nomeia o português “Aquele Querido Mês de Agosto” de Miguel Gomes como referência, bem como “Le Mistral” e “Tale of the Wind”, dois filmes do documentarista holandês Joris Ivens, onde o vento e o realizador são protagonistas.

“É uma espécie de invasão chegar a um local distante com toda equipe e os equipamentos. Acho que esse personagem tensiona essa relação de poder que se estabelece entre equipe de filmagem, pessoas e comunidade, nessa ficção que se coloca a partir de uma relação estranha desse homem que sobrevive trabalhando com o vento.” Gabriel Mascaro

Em Locarno foi comparado a “Barravento” de Glauber Rocha, que nos remete para os pioneiros do cinema novo brasileiro dos anos de 1960, em plena ditadura no país, inspirados pelo neo-realismo de Rosselini, a montagem de Eisenstein ou a influência da Nouvelle Vague francesa.

Eduardo Lourenço, no seu comentário crítico “O «cinema novo» e a mitologia cultural francesa” publicado na Revistas de Ideias e Culturas em 1967, cita Glauber Rocha na semana dedicada ao cinema brasileiro do Cine Club Jean Vigo de Nice, no mesmo ano:

“Um cinema novo, como é o caso do cinema brasileiro, não pode fazer outra coisa que integrar formas próprias de expressão do contexto humano, social e político de uma nova civilização. É difícil renegar as influências e as tradições das culturas acabadas e tentar, em seu lugar, criar um cinema novo, para o qual a necessidade de conhecimento será sempre mais forte que as puras especulações estéticas. O cinema tem os seus mitos. Ele é, em si, um mito, fechado no seu labirinto crítico e histórico, Desmistificar o cinema, libertando as suas formas de expressão, desmistificar a realidade pela verdade do cinema, tal é o difícil e duplo papel do cineasta hoje.”

Na primeira sessão do ano novo, um dos nomes mais importantes do cinema brasileiro destes dias.